Entrevista com José Calixto Ramos

Por / 4 meses atrás / Economia, Geral, Parobé / Nenhum Comentário

Entrevista com José Calixto Ramos

“A política não está sadia”

Centrais sindicais avaliam lançar projeto de iniciativa popular pra rever alguns pontos da reforma trabalhista, enquanto aguardam medida provisória do Executivo que reduza um pouco as perdas das categorias 

José Calixto Ramos, 89, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria (CNTI) e da Nova Central Sindical de Trabalhadores (NCST) esteve recentemente em Porto Alegre participando de debate sobre a reforma trabalhista com dirigentes do Rio Grande do Sul. Ele fala sobre a necessidade de o movimento sindical voltar às bases para se fortalecer e enfrentar o momento considerado um dos mais duros da história do sindicalismo brasileiro.

Como superar este momento de dificuldades que vive o sindicalismo?

Precisamos de controle emocional,  resignação e perseverança. Vamos enfrentar estas crueldades que estão derramando sobre nossas conquistas e vencer, com fé em Deus e esperança. Precisamos trabalhar pra não deixar que a chama do sindicalismo se apague, é preciso mais união e ampliação do trabalho de base, é hora da unidade não importando partido ou religião.

Nos tiraram os anéis, então precisamos trabalhar para fortalecer o movimento e não perder os dedos. O que estão fazendo enfraquece não apenas o sindicalismo mas a própria democracia, assegurando aos empresários tomar as iniciativas que melhor lhes convém.  Os poderes estão todos contra nós, some-se a isto uma forte crise na política representativa, agravada por uma crise moral. Vemos políticos envolvidos em grandes escândalos de corrupção e um presidente comprando parlamentares com emendas para se manter no poder. 

Muitos trabalhadores, lá na base, não estão compreendendo que isto tudo é contra ele.

É forte na grande mídia a mensagem de que os sindicatos não atendem mais aos interesses dos trabalhadores, e muitas pessoas parecem estar contentes com o fim da contribuição sindical compulsória. Como o senhor avalia esta situação?

Aos dirigentes, digo que precisamos nos aproximar cada vez mais das bases. Aos companheiros das fábricas, dos escritórios, dos bancos, que reflitam sobre tudo o que está acontecendo mas nunca deixe de contribuir com o seu sindicato. Nós precisamos dos trabalhadores, que eles contribuam com a organização sindical, porque ela é eterna. Sindicato é uma chama que nunca se apaga, se você não contribuir possivelmente ficará sem apoio para suas lutas por uma vida melhor e mais digna.

As centrais sindicais estão lutando, junto a deputados e senadores, para que o governo edite medida provisória que reveja pontos da reforma trabalhista recentemente aprovada, que possa amenizar as perdas sofridas pelos trabalhadores e suas organizações de classe?

O governo acenou com a possibilidade de editar uma Medida Provisória (MP) para atender alguns pontos que consideramos um enorme retrocesso.  Nesta comissão de negociação estão sindicatos, federações, confederações e centrais.  Estamos aguardando esta MP com alguns ajustes, conforme prometido pelo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, quando no exercício da presidência, recentemente. Temos que ficar atentos pois poderão vir medidas ainda piores, pra contemplar ainda mais apenas os empresários. Também analisamos ingressar com um Projeto de Lei (PL) de iniciativa popular, para isto precisamos conseguir 1,5 milhão de assinaturas. São 21 confederações de trabalhadores reunidas com este objetivo.

O sindicato é a única trincheira que o trabalhador tem em defesa de seus direitos e orientação para resolução de seus problemas.

Como é ter que dialogar com uma classe política tão comprometida com o capital?

Quem vive permanentemente em Brasília começa a aprender uma série de artimanhas políticas que existem no Congresso Nacional.  É uma situação difícil. Precisamos sempre medir o tom e as palavras com os deputados ou senadores. Se hoje eu discuto com um deles, no outro dia eu preciso estar lá de novo, quase sempre com o pires na mão, pedindo pra ele que acompanhe ou vote algum projeto de nosso interesse. Às vezes somos obrigados a discutir com eles e precisamos de todo o cuidado com o que dissemos, com a forma como nos expressamos. Também pra que não fique esta pecha que nos impuseram de sermos radicais e intransigentes, eles estão atuando nisso de maneira muito agressiva. Nossa palavra dificilmente chega aos grandes veículos de comunicação, a imprensa tem dado voz apenas aos empresários.

Qual a orientação para os sindicatos quanto às futuras convenções coletivas de trabalho?

A nova lei deve entrar em vigor em novembro, a partir daí vamos trabalhar de acordo com ela, mas tentando sempre ir um pouco além. Numa convenção coletiva vamos tentar ir um pouco mais adiante do que está previsto na legislação. Vamos caminhar no sentido de manter a convenção anterior mesmo que alguns pontos tenham sido suprimidos. Sabemos que a lei veio em prejuízo do trabalhador, mas não podemos abaixar a cabeça.

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